Quando o assessor ganha mesmo que você perca

A maioria dos investidores parte de uma premissa intuitiva: se o profissional que o orienta ganha dinheiro com seu patrimônio, então seus interesses estão alinhados. A lógica parece simples. Se o patrimônio cresce, todos ganham. Se o patrimônio diminui, todos perdem. No entanto, em grande parte do mercado financeiro e de consultoria patrimonial, essa relação não funciona dessa forma.

Em muitos casos, o profissional é remunerado independentemente do resultado do cliente. A diferença entre essas duas estruturas (remuneração baseada em volume transacionado e remuneração baseada em acompanhamento estratégico) altera profundamente a forma como decisões patrimoniais são tomadas.

Quando a remuneração depende da venda de produtos, da intermediação de operações ou do giro de carteira, o incentivo econômico do profissional não está necessariamente ligado ao resultado final do cliente. Ele está ligado à atividade. Isso significa que o profissional pode continuar sendo remunerado mesmo quando a estratégia adotada não produz bons resultados para quem investe.

Esse modelo é comum porque gera previsibilidade de receita para as instituições que distribuem produtos financeiros. Bancos, corretoras e plataformas estruturam seus modelos de negócio com base na distribuição de ativos e na intermediação de operações. Cada aplicação, cada troca de posição e cada produto colocado na carteira pode gerar uma nova camada de remuneração para o sistema. Para o investidor, entretanto, o efeito desse modelo pode ser bastante diferente.

Quando a remuneração está vinculada ao volume transacionado, o incentivo natural passa a ser manter o cliente ativo dentro da engrenagem de produtos e operações. Mais movimentação tende a significar mais receita para o intermediário. Isso não significa necessariamente má-fé por parte do profissional. Na maioria das vezes, trata-se simplesmente da resposta natural a um sistema de incentivos.

Em qualquer setor econômico, as pessoas tendem a agir de acordo com a forma como são remuneradas. Se a remuneração depende da venda de produtos, o sistema tende a produzir venda de produtos. Se depende de operações, tende a produzir operações. Se depende da intermediação constante, a intermediação passa a ocupar o centro da relação. O problema é que o patrimônio do cliente nem sempre precisa de atividade constante para ser bem administrado.

Em muitas situações, a melhor decisão patrimonial pode ser justamente reduzir movimentações, simplificar estruturas ou manter posições por longos períodos. Entretanto, esse tipo de decisão raramente gera receita adicional dentro de um modelo baseado em volume.

A consequência é que o investidor passa a operar dentro de um ambiente em que os incentivos financeiros do sistema não estão necessariamente alinhados com a preservação de seu patrimônio. Essa diferença se torna ainda mais relevante quando decisões de risco entram em jogo.

Quando um profissional é remunerado independentemente do resultado final do cliente, ele não sofre diretamente as consequências econômicas de uma estratégia mal calibrada. Se uma operação aumenta a exposição ao risco e não funciona como esperado, o impacto financeiro recai principalmente sobre o investidor. O intermediário, por sua vez, pode continuar sendo remunerado pela atividade que gerou a operação. Essa separação entre risco econômico e remuneração cria um desalinhamento estrutural. O cliente assume o risco patrimonial, enquanto o sistema continua sendo remunerado pela atividade.

É por isso que muitos investidores acabam observando, ao longo do tempo, uma carteira cada vez mais complexa, composta por múltiplos produtos, estruturas e mudanças frequentes de posição. Cada elemento dessa complexidade pode ter uma justificativa técnica isolada. No entanto, quando analisados em conjunto, esses movimentos muitas vezes refletem mais o funcionamento do modelo de remuneração do que uma estratégia patrimonial de longo prazo.

Existe, porém, uma forma diferente de estruturar essa relação. Em modelos de acompanhamento estratégico, a remuneração não depende da venda de produtos nem do volume de operações realizadas. O profissional é remunerado diretamente pelo cliente para acompanhar, estruturar e revisar decisões patrimoniais ao longo do tempo.

Nesse tipo de estrutura, o incentivo econômico muda. Se não existe remuneração adicional associada à venda de produtos ou ao giro de carteira, o profissional não tem estímulo financeiro para aumentar artificialmente a atividade. O foco passa a ser a coerência da estratégia patrimonial e a consistência das decisões ao longo do tempo. A discussão, então, deixa de ser qual produto deve ser colocado na carteira e passa a ser qual arquitetura patrimonial faz sentido para aquele cliente.

Essa mudança de perspectiva costuma alterar profundamente a forma como o patrimônio é analisado. Em vez de começar pela escolha de ativos, a análise passa a começar pela estrutura da decisão: objetivos de longo prazo, tolerância ao risco, exposição patrimonial e organização das diferentes camadas do patrimônio. Somente depois dessa arquitetura é que a escolha de instrumentos financeiros se torna relevante.

A pergunta central deixa de ser “qual investimento comprar?” e passa a ser “qual estrutura de decisão protege melhor o patrimônio ao longo do tempo?”. Para o investidor, compreender essa diferença é fundamental.

Nem sempre o problema está no produto específico sugerido ou na operação realizada. Muitas vezes, o ponto central está no modelo de incentivos que orienta a relação entre o cliente e quem o aconselha. Quando o sistema remunera atividade, a atividade tende a crescer. Quando remunera intermediação, a intermediação se expande. Quando remunera venda de produtos, os produtos passam a ocupar o centro da relação. Por isso, antes de analisar qualquer estratégia patrimonial, existe uma pergunta mais fundamental.

Quem ganha dinheiro quando uma decisão é tomada?

Se a resposta para essa pergunta não estiver claramente alinhada com o interesse do cliente, é possível que o sistema esteja funcionando para fomentar remuneração, ainda que isso não seja necessariamente o melhor cenário para o cliente no longo prazo.

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